Intertexto de Brecht reinterpretado para os eventos recentes no Brasil

Primeiro levaram os “vândalos”
Mas não me importei com isso
Eu não era “vândalo”

Em seguida levaram alguns “baderneiros”
Mas não me importei com isso
Eu também não era “baderneiro”

Depois prenderam os manifestantes pacíficos
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou manifestante

Depois agarraram uns ativistas da internet
Mas como eu só posto tirinhas memes
Também não me importei

Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.

(Reinterpretação do poema “Intertexto” de Bertold Brecht para os eventos atuais do Brasil (Junho/2013))

Porta

Bate-se à porta. Atender? Não atender?
Barulhos são feitos na tentativa de silêncio. Já notaram que existe presença na residência. Não seria prudente não atender.

Mas ao atender, virão?
Tomarão aquilo que resta, que precisa que seja tomado a tanto tempo? Ou apenas inspecionarão e depois sairão sem deixar traços?

Tanta expectativa por felicidade fez com que o medo de falhar deixasse a porta fechada e assim, o sono retornava a um ponto que, no dia seguinte, nada seria lembrado.

Bateriam à porta novamente?

Consequência

Descobriu que para conseguir o que gostaria, teria de mudar. Conseguiu o que desejava, mas não era o mesmo. Logo percebeu, não era mais aquilo o que queria.

/s/

Sofia saberia se seu sorriso seria suficiente. Sozinha, sentia seu suor suando suavemente sob seus seios. Seu sorriso cessou sem Sofia saber se sofria. Sem cercear sua solidão soube: Sim, sorria. Sim, sofria.

Pílulas

O mundo possui uma perversidade tão imensa que as vezes anseio pela vinda de Morpheus apenas para que eu possa tomar a pílula azul. Então lembro-me: já é tarde, tomei a vermelha.

Faça com os outros aquilo que você gostaria que fosse feito com você

Não entendia porque estava sendo reprimido, fora educado daquela maneira.
O sadomasoquista estava prestes a ser linchado. “Trate os outros como você gostaria de ser tratado”. Era o que fez, espancara, apanhara. Morreu. Não entendeu.

Passou-se a ensinar “Faça com os outros aquilo que os outros gostariam que fosse feito com eles”. O mundo fazia sentido. Fazia?

Batidas

Batidas rítmicas, não sabia se vinha do relógio ou do peito.
Não importava.
Doía.

Escolha

Finalmente encontrou Morfeu. Poderia escolher a verdade da ignorância e esquecer tudo aquilo. Preferiu a mentira da realidade. Se fodeu.

Experimento

Já foi chamado de cientista, não sabia ao certo o que era. Aceitava cientista. Não saía do laboratório, todos os dias media, anotava, analisava, comia, conferia, dormia. Não tinha certeza se o experimento era aquilo, ou se era ele.

Escada rolante

Blocos metálicos distribuídos. Um grande motor girando, dando forma de uma escada àquele tão embaraçoso emaranhado. Não se dar ao trabalho de subir uma escada. Conforto. Fome.

Sombrio

Escuro.
Nada podia ver. Não conseguia diferenciar os olhos abertos de fechados. Estava cego? Não importava. Estava vivo? Se perguntava.

Sirenes

Podia ver o reflexo harmônico do vermelho com o azul se alternar em sua janela. Sabia o que estava por vir, de certa forma aguardava pagar o que fez. Também sabia que era uma esperança vazia. Sabia que jamais poderia pagar em uma cadeia, aquilo que cometera.

Personalidade

Não armazeno personalidade, absorvo a mais próxima. Expira no fim do dia.

Lampejos

Lampejos. Talvez seja uma memória. Talvez seja um sonho. Mas qual a diferença afinal?

Destinado para o desastre

Parcia normal. Estranho, na verdade. Mas pior do que se imaginava. Esperava desastres. Torcia para chuvas virarem tempestades torrenciais. Se perder de carro mais emocionante que o destino da viagem. Acreditava em teorias da conspiração, não porque faziam sentido, mas na torcida de serem verdade.