Como as novas reações do Facebook podem ajudar a disseminar conteúdos horríveis na rede

Como as novas reações do Facebook podem ajudar a disseminar conteúdos horríveis na rede

Texto publicado originalmente por mim no Medium

Antes de começar o post recomendo que assistamos esse excelente vídeo do CGP Gray sobre como ideias, sobretudo na internet, se espalham de forma parecida com germes, constituindo “germes de pensamento”.

Sites como esse vira e mexe estão de volta na rede. São o tipo de conteúdo que se espalha rapidamente devido a um ódio, completamente justificado, ao conteúdo, que no entanto, ainda que haja adeptos reais desse tipo de pensamento e prática, os doentes e “trolls” que realmente concordam com essas sandices, na boa maioria das vezes não se assumiriam publicamente como tais, deixando a divulgação desse tipo de conteúdo se dar via repúdio praticamente na integralidade. Uma ferramenta de “descurtir” no formato “angry” tem o potencial de amplificar ainda mais esse tipo de conteúdo terrível. A alternativa ao compartilhamento indignado é denunciar, sem espalhar o link e consequentemente divulgar as ideias, que é o objetivo de muitos “trolls” que produzem esse tipo de conteúdo.

Como mostrado no vídeo, a raiva é um dos sentimentos que mais gera o espalhamento de uma ideia. As pessoas sentirem raiva de um conteúdo faz com que ele se espalhe velozmente para ser repudiado. Muitos discursos de ódio com pouquíssima adesão real sobrevivem e se alimentam justamente dessa estrutura de “rage share” ou “compartilhamento de raiva”, em que os conteúdos são disseminados acompanhados de mensagens como: “que absurdo”, “eu não acredito que falaram isso”, “essa pessoa não poderia estar falando essas coisas”.

Contraditoriamente, é justamente essa raiva que leva o conteúdo mais longe, transformando muitas vezes um comentário irrelevante fadado ao ostracismo a um ódio generalizado de toda rede, com o perigoso potencial de poder atingir, através do compartilhamento de indignação, simpatizantes dessa ideia bizarra, que não teriam acesso a ela apenas por divulgação orgânica.

Mas o que as novas reações do Facebook têm a ver com isso? Em agosto do ano passado o Facebook anunciou que novas reações além do “like” seriam incluídas na plataforma, e agora no final de janeiro o mundo todo recebeu a nova atualização: “Amor”, “Risada”, “Susto”, “Tristeza” e “Raiva” são as novas reações além do like na rede.

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Sim, acharam uma boa ideia traduzir “Angry” para “Grr”

No entanto, do ponto de vista de seus algoritmos e métricas, o Facebook anunciou que qualquer uma das reações funcionará como um like. Como sabemos, conteúdos “curtidos” (ou agora “reagidos”) pelos amigos, têm mais chance de aparecer na sua timeline, mais chance de ganhar divulgação, e ganham mais relevância dentro da rede. Portanto, conteúdos odiosos, discursos falsos e outros péssimso formatos de conteúdo na rede têm um novo aliado na sua divulgação: a reação “angry”. Se passarmos a usar a reação “angry” como um dislike, ao mesmo tempo em que o algoritmo do Facebook continuar considerando-a como like, cada vez haverá mais conteúdos que nos farão passar raiva.

Outro exemplo de conteúdo que se dissemina via “rage share”, muito provavelmente sem adeptos reais, e que poderia ter sua divulgação amplificada com as reações

Outro exemplo de conteúdo que se dissemina via “rage share”, muito provavelmente sem adeptos reais, e que poderia ter sua divulgação amplificada com as reações

Claro que nem todo uso da reação “angry” caracterizará necessariamente no fenômeno do “rage share” para o compartilhamento de conteúdos horríveis Por exemplo, hoje saiu no jornal local da minha cidade a divulgação de que uma senhora humilde de 65 anos estava vendendo geladinhos na rua, quando foi abordada por policiais e pela agência de fiscalização de forma truculenta, teve sua mercadoria apreendida, teve um ataque cardíaco e estava internada em estado grave. Essa notícia foi a minha primeira reação “angry” do Facebook, e acredito que tenha sido um uso razoável e não configura o que venho chamando aqui de rage-share.

Ficar “Grr” tá liberado nesse caso, inclusive com muita razão. Nada mais perverso do que o Estado usar a força contra cidadãos humildes querendo complementar suas rendas através do comércio descentralizado.

Ficar “Grr” tá liberado nesse caso, inclusive com muita razão. Nada mais perverso do que o Estado usar a força contra cidadãos humildes querendo complementar suas rendas através do comércio descentralizado.

Se uma pessoa querida publica o relato de algo que te deixe com raiva, acredito que também seja uma forma adequada de utilização da reação.

A reação “angry” parece ter sido controversa até dentro do Facebook. Em imagem divulgada por eles mostrando o processo de testes de beta que levaram a criação dos botões atuais, não havia equivalente ao “angry” ou “grr”

A reação “angry” parece ter sido controversa até dentro do Facebook. Em imagem divulgada por eles mostrando o processo de testes de beta que levaram a criação dos botões atuais, não havia equivalente ao “angry” ou “grr”

Meu receio está na utilização do “angry” como “dislike”, o tornando um agente de divulgação de “rage share”, amplificando o processo de tornar famosas pessoas irrelevantes, via ódio, e a divulgação de ideias que nem adeptos divulgam, inundando assim a rede de conteúdos horríveis. E compartilhe esse texto para levar o germe dessa discussão para mais gente.

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